Sergio Serra é um dos principais nomes da guitarra nacional, não só pela sua qualidade musical e técnica, mas por ter feito parte da história do Rock brasileiro. Nessa entrevista com a SINFONICA, ele revela como surgiu o seu amor pela guitarra, fala sobre as bandas que passou durante a sua carreira e sobre o seu mais novo projeto. Confira abaixo essa simpática entrevista e conheça um pouco mais sobre esse ÍCONE da guitarra brasileira.


SIN: Como surgiu o amor pelas guitarras?

SS: Quando eu nasci, meu pai já trabalhava na gravadora Odeon, e foi muito natural me interessar por música pois sempre havia música tocando em casa, e ele sempre recebia alguns artistas nas festas e no reveillon.
Lembro do Altemar Dutra levando um violão e dizendo que era um presente para quando eu crescesse, mas foi lá pelos meus nove, dez anos, que comecei a ouvir os discos que tinham lá em casa; a gente devia ter uns cinco mil discos. Na época saiu uma revista chamada ‘Rock, a história e glória’, eram entrevistas, biografias de bandas e compositores, todos dos anos 60 e 70. O primeiro número foi sobre os Rolling Stones e foi quando comecei a me interessar pela bateria.
Pedi uma bateria para o meu pai, e falei que o meu sonho era ser músico. Ele comprou a bateria e comecei a praticar, tocando junto com os discos lá de casa. Lembro de tocar junto com a faixa ‘Honky Tonk Women’ dos Rolling Stones, o disco ‘Pinups’ do David Bowie, esse eu acompanhava inteiro.
Ficava tocando com os discos e sonhando em ser um artista, até que um dia peguei um disco do Paul McCartney, o ‘Band On The Run’. Essa edição de vinil tinha um pôster com fotos dele tocando várias guitarras e vários instrumentos, aquilo me deixou encantado. Também tinha a capa do Trini Lopez com aquela guitarra pontiaguda, acho que era um Gibson super 400, uma vez esbarrei com o disco do BB King e vi a guitarra 335.
Um belo dia, eu estava em casa, pensando e imaginando como seria o show da minha banda, e quando visualizei isso, me vi no palco lá atrás, e pensei: “Pô! Ninguém vai me ver! Se eu tocar bateria vou ficar lá atrás.” Foi nesse momento que houve a conversão, e eu disse a mim mesmo: Não! Eu vou é tocar guitarra, assim eu fico lá na frente e todo mundo vai me ver”.
Nessa época eu já estava seduzido pelo som da guitarra, pelas coisas que eu vinha lendo nessa revista que falei. Foi nesse momento que contei para o meu pai que eu queria tocar guitarra, ele até questionou e tudo o mais. Nós morávamos no Rio de Janeiro e estávamos mudando para Teresópolis, e eu não queria ir, pois tinha a minha turma no Rio, e eu pegava onda com dez anos de idade, não queria deixar aquele mundo para trás.
Nessa mudança, para me deixar contente, meu pai me deu uma guitarra Giannini (mini músico), e ela veio junto com um ‘amplificadorzinho’ laranja. Comecei a tocar sem saber mesmo, comprei aquelas revistas com canções que vinham os acordes e do lado as cifras. Tinha um primo meu que também era músico, ele começou a me ensinar alguns acordes de Blues.
Foi nesse período que cheguei a conclusão de que a guitarra era o meu instrumento, e que era com ela que eu iria realizar o meu sonho. Em 1976, ou 77, não me lembro bem, fui ao cinema com a minha mãe assistir o ‘The Song Remains The Same’, um filme-concerto feito pela banda Led Zeppelin, no Brasil, esse filme foi chamado de ‘Rock é Rock mesmo’. Fiquei maravilhado quando vi o Jimmy Page com aquela Les Paul, e encantado com tudo o que vi no filme. Eu já ouvia muito Led Zepelim na época, era a minha banda predileta, junto com os Rolling Stones e depois os Beatles. Na mesma hora falei para a minha mãe que eu queria uma Les Paul, e ela me respondeu que iríamos ver isso.
Depois que a gente saiu do cinema, fomos em uma das lojas de instrumentos musicais que tinham no centro do Rio de Janeiro, e compramos a guitarra que era a mais parecida com a do Jimmy Page; lembro que foi uma guitarra Finch. A guitarra, por ser muito potente, quando liguei naquele amplificador pequeno da Giannini, ela estourou o falante, e o som da guitarra ficou distorcido, com um sonzão, como se estivesse com um pedal de drive.
Cheguei a montar uma banda em Teresópolis com uns amigos do condomínio onde fomos morar. A minha paixão pela guitarra surgiu do estalo de que eu não iria aparecer nos shows e eu também já estava achando lindo o instrumento naquela época. Quando o meu primo, aquele que me ensinou os acordes blues, ganhou uma guitarra, fui correndo ao apartamento dele e fiquei fascinado quando abri o case. Era uma guitarra linda da marca Phelpa, tinha uma pintura sunburst e era cheia de botões.
E foi isso, todos esses eventos contribuíram para que a guitarra entrasse na minha vida. É uma paixão que virou amor e se tornou um amor apaixonado, digamos assim.

SIN: Você tocou com grandes bandas do Rock nacional, qual foi o seu trabalho mais relevante?

SS: Eu toquei com o Barão Vermelho, Legião Urbana, Cássia Eller, João Penca, Hanoi Hanoi, Zero. E o grande público se lembra das minhas passagens pelo Ultraje a Rigor. Pessoalmente, foi no Ultraje a Rigor que fiz o trabalho mais importante, foi onde eu fiquei mais conhecido, e onde eu pude colocar o meu estilo, as musicas tinham muitos solos e isso me dava um destaque muito grande. O Ultraje era uma das bandas mais conhecidas, foi a primeira banda a ganhar disco de ouro na época. A Blitz veio em seguida, mas foi o Ultraje que ganhou discos de ouro e platina com o disco ‘Nós vamos invadir sua praia’. O Ultraje foi o meu trabalho mais relevante, por conta do que eu disse, pelo destaque que me dava, pelo espaço que eu tinha para mostrar o meu trabalho e por ser uma das maiores banda de rock do Brasil.

SIN: Das participações em álbuns de grandes nomes da música, não só como guitarrista, qual considera aquele que faria de novo?

SS: Eu faria de novo o primeiro disco solo do Arnaldo Brandão: Brandão e o Plano D. Eu comecei a tocar com o Arnaldo em 1999, e fiquei com ele até 2002, quando eu fui chamado para tocar no Ultraje novamente. Mas é um disco muito importante, sugiro que vocês procurem ele: Arnaldo Brandão e o plano D. Nesse disco eu pude colocar quase todas as influências que eu tinha na guitarra, usar guitarras limpas, usar guitarras com alavancas misturando com efeitos, guitarras base diferentes da onda Rock n’ Roll, umas coisas mais Funk, algumas coisas mais líricas em termos de balada. Enfim, eu pude ter acesso a músicas que me permitiam realizar coisas que eu não tinha realizado até então. E é um disco muito bom, as composições são muito boas. Com certeza, se tivesse que escolher, eu escolheria fazer de novo esse trabalho e tocar com o Arnaldo Brandão.

SIN: Conte um pouco sobre o projeto  “Um Baile A Rigor”.

SS: Depois que eu saí do Ultraje, fiz um disco solo chamado ‘Labirinto vertical’, que está no meu canal. É importante que se ouça ele de baixo para cima, pois ele foi colocado na ordem inversa, a primeira música, na verdade, é a última. Para quem for ouvir, ouça a partir de o ‘Impossível Aconteceu’ até ‘Bella’, a última música. Eu estava muito confiante com aquele trabalho, eu era o vocalista, letrista e tinham composições minhas em parcerias com outras pessoas: Frejat, Mauro Santa Cecília, Cazuza. Fiz esse disco e tentei negociar com as gravadoras e não consegui nada. O mercado estava completamente mudado e eu não tinha percebido isso. Também percebi que o que estava dando dinheiro na época era o cover. O Rodrigo Santos tinha acabado de gravar um disco autoral e não estava tocando as músicas do disco autoral, ele estava fazendo cover das bandas que ele gostava dos anos oitenta.
E eu pensei nisso: “Eu toquei com quase todas as bandas, vou fazer um baile”. Eu e um baterista incrível que mora aqui em Teresópolis, o Hélio Alfredo Ratis, combinamos de montar uma banda e fazer um bailinho, e começamos a ensaiar com o Luciano Mendes. E aí, baile vai, baile vem, baile não vem, um dia eu estava pensando em um nome para o projeto: “Nós vamos fazer um baile, um baile… fazer um baile a rigor!” – Ai me veio esse nome, e eu falei: “Putz! Um baile a rigor! Tem a mesma divisão silábica, ‘Ultraje a Rigor’, ‘Um baile a Rigor’, e inclusive é parecido. Poxa, eu posso tocar um show inteiro do Ultraje, que é um show de hits, e cantar, além de ter esse charme de ser uma banda de cover com um integrante da banda original”.
É um projeto que eu estou esperando para ver o que vai acontecer, estou aguardando o momento certo para colocar de novo na rua. É um trabalho incrível, eu adoro cantar as músicas. A gente fez os arranjos um pouco mais pesado, não Heavy Metal, mas uma coisa para o lado do Hard Rock e ao mesmo tempo respeitando a peculiaridade de cada canção. Se tinha uma canção de Surf Music a gente fazia ela Surf Music, ou fazia um mix ‘Hard Surf Music’, mas a gente pegou as características que não podiam ser retiradas de cada canção da banda e as manteve junto de novas ideias.
Junto com o meu projeto autoral, esse  é o meu projeto comercial onde eu posso fazer mais coisas, porque o Roger não toca no nordeste há uns vinte e cinco anos, então a gente tinha planos para ir, mas por vários motivos a gente não conseguiu se organizar para fazer esses lugares que o Roger não vai a muito tempo, por causa do problema dele com avião.
Quando eu entrei no Ultraje, ele já não andava de avião, mas a gente fez o Brasil inteiro de ônibus. E quando eu voltei em 2002, ele já não estava fazendo diversos lugares, já tinha um campo de ação bem menor. Eu acho que o ‘Um baile a Rigor’ tem uma chance enorme de ser um projeto de sucesso, exatamente porque vai levar a música do Ultraje a Rigor, com um ex integrante da banda cantando essas músicas, a lugares onde a banda não vai mais.

SIN: Essa é para fechar com chave de ouro: você, Wander Wildner e Thunderbird no Subversões…relembre algum momento impagável.

SS: Esse projeto com o Wander Wildner e Thunderbird no Sub versões foi uma alegria! Eu comecei com o Wander e puxa, eu sou fã do Wander e quando me vi tocando com ele, fiquei amarradão. As subversões musicais que ele fazia eram incríveis e ele tem um carisma muito grande, ele é um grande artista, a gente começou se divertindo muito. Depois entrou o Thunder e a gente continuou fazendo shows. Foram muitos momentos impagáveis e infelizmente eu não lembro de nenhum que possa te contar e que seja relevante. Eram três caras muito engraçados, se divertindo no palco, e os momentos impagáveis aconteciam ao vivo durante a execução das músicas.
O que gostaria de destacar é a gratidão enorme de ter tocado com todas essas pessoas, com todas as bandas, ter tocando com o Wander, com o Thunder, o Roger, o Maurício Leospa, Bacalhau, Mingau, pessoal do João Penca, Leo Jaime, Arnaldo Brandão, no Hanoi Hanoi, com a Cássia Eller, que foi um trabalho incrível que a gente fez com os violões. Eu estava no início daquele projeto com ela, mas depois eu saí para fazer outras coisas, porque eu sempre quis investir no meu trabalho autoral, mas desde quando eu saí do Ultraje, ficou cada vez mais difícil. Mas tem as plataformas e existem outras formas. Eu ainda pretendo gravar um segundo disco e realizar, dentro do possível, esse trabalho autoral.

Por Cláudio Hollanda.

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