SIN: O Dr. Silvana & Cia. foi criado em meio a efervescência musical dos anos 80. Como foi se estabelecer numa época tão concorrida?

CP: Foi tudo uma questão de sorte, e é verdade que existiam muitas bandas de ótima qualidade. Fizemos como era costume: diversas fitas “demo” como eram conhecidas na época, fitas magnéticas de demonstração. Contratávamos um estúdio, um produtor (quando nós mesmos não produzíamos, pois já trabalhávamos em gravações), e gravávamos algumas músicas autorais.

Nunca desistimos, fizemos diversas fitas e entregamos em todas as gravadoras muitas vezes.
Foi a vitória da perseverança!!!

SIN: De cara vocês emplacaram “Eh! Oh!”, “Serão Extra” e “Taca a Mãe pra Ver se Quica”. Além da qualidade sonora, você acredita que a irreverência das músicas contribuiu para esses 3 meteóricos hits?

CP: Sem sombra de dúvidas a irreverência foi a chave. Existiam muitas bandas e a maioria panfletária, pois passávamos por uma época politicamente conturbada e os jovens “rebeldes” (por muitas vezes sem causa, pois eram de famílias conhecidamente burguesas) achavam que essa rebeldia falariam melhor o pensamento da juventude.

Nossa posição foi a da irreverência sem deixar de passar algumas mensagens críticas a hipocrisia social, do falso moralismo. Não estivemos sozinhos nessa empreitada que dividíamos com bandas como Ultraje a Rigor, Blitz, Miquinhos Amestrados e até Paralamas do Sucesso entre outras.

SN: A década de 90 rendeu apenas um álbum que não foi tão bem recebido pelo público. Isso se deve ao mercado fonográfico em si ou a forte mudança nas tendências musicais que ocorreram na época?

CP: As 2 coisas. Nos anos 90 o cenário fonográfico mudou bastante pois as gravadoras estavam empenhadas em criar um novo movimento musical. Tentaram o forró, a lambada, o pagode, o sertanejo já dando os primeiros passos, dentre outros ritmos menos concorridos.

O nosso disco, produzido por nós mesmos, foi nossa tentativa de nos manter em atividade, já que as gravadoras não queriam mais rock, vide que os sucessos rock dos 90 se resumiram basicamente a 3 bandas: Skank, Jota Quest e Charlie Brown Jr. – não deixando outras bandas do segundo escalão sequer chegar ao público para que se tomasse conhecimento (as gravadoras exerciam um grande poder sobre as rádios, maior meio de comunicação da época) das novas obras sendo que, nem podemos dizer que tivemos uma má aceitação, pois o disco nem chegou as mídias… que dirá ao conhecimento do público.

SN: Como era a parceria com Ricardo Zimetbaum nas composições?

CP: O Ricardo sempre foi muito bom com letras. Era rápido! Bastava chegar com uma melodia que ele já colocava a letra com muita facilidade, e pouco tinha que se mexer.

Eu tinha muita facilidade com as melodias, ritmos e arranjos pois eu tinha uma escola de muitos anos de baile, de gravações e até acompanhando artistas, o que tornava a parceria muito prática.

O Zulu (baixo) também tinha muita criatividade, tanto que foi meu principal parceiro após a saída do Ricardo, assim como o Edu (baterista) que também compunha. Ou seja, a banda era muito rica em criatividade, somada a minha experiência de muitos anos com músico, sem querer entregar a idade, claro. 😄😄😄😄😄

SN: Na área da produção musical, quais as novidades que podemos esperar com a assinatura de Cicero Pestana? E qual o futuro do Dr. Silvana & Cia?

CP: Bem, como Cícero Pestana como produtor, podem esperar todo o tipo de composição, produção e arranjos pois isso é minha paixão, independente do estilo, ritmo ou moda. Como produtor ou compositor sou eclético, sem receio de me arrepender pois, como já falei, é minha paixão, minha cachaça, e continuarei atuando em todas as frentes musicais como todos que me conhecem sabem.

Já como Dr. Silvana & Cia… O mundo mudou muito, praticamente não existem mais gravadoras. Rádios e os programas de televisão dão muito pouco retorno. Então nessa tentativa de nos adaptarmos, continuaremos compondo, não mais com o objetivo de vender discos, o material físico não existe mais, então é natural soltarmos uma música de cada vez, lutando para que fique o máximo possível no streaming (nem sei se é assim que se fala 😁😁😁) para que as pessoas tomem conhecimento e possam curtir nossos rocks que continuam, na medida do possível, com a mesma irreverência que sempre produzimos e somos conhecidos.

Muito obrigado pelo espaço cedido pela SIN e podem contar com a gente a qualquer hora. Valeu!!!

Por Cláudio Hollanda

Cícero Pestana

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