A relação entre músicos e a OMB (Ordem dos Músicos do Brasil) é longa. Às vezes polêmica. Outras fundamental. Como está essa relação nos dias de hoje? A Sinfonica Records conversou com Mauro Almeida, presidente da OMB-RJ e um dos mais importantes produtores musicais do país. NO bate-papo ele fala sobre carreira, música, profissão, o cenário musical atual e a expectativa pós-pandemia da COVID-19.

Como surgiu essa paixão pela música?

Tenho 68 anos e estou nesse negócio desde os 15, quando comecei a tocar nos bailes da vida. Foram 20 anos tocando na Brazilian Boys, uma das melhores bandas do Rio de Janeiro, que resultou ainda na gravação de dois compactos simples e dois LPS.

O ambiente e magia de um estúdio de gravação fez com que eu me apaixonasse perdidamente pela profissão de produtor. Via ali a oportunidade de participar de todo o processo da descoberta de novos músicos, arranjadores, compositores e cantores, mantendo um nível alto de músicos já estabelecidos. 

Ao encerrar a história com o Brazilian Boys, comecei a correr atrás do meu sonho. Era difícil entrar num clube muito fechado e diferente de hoje em dia – eram grandes produtores, poucos estúdios e domínio majoritário das gravadoras. Já vacinado para tudo isso, “quem não se levanta para acender a luz não pode reclamar da escuridão”. Muito trabalho, dedicação e profissionalismo fizeram com que chegasse onde estou: um dos 20 produtores e diretores artísticos mais premiados do Brasil, com mais de 110 milhões de álbuns vendidos, e responsável pelo lançamento de sucessos absolutos.

Como se encontra a OMB hoje? Os músicos têm procurado vocês?

A Ordem continua sua luta para que os músicos possam ter dignidade, valorização e respeito, além de fazer o Poder Público entender que a profissão é arte e gera empregos diretos e indiretos. O poder da música no PIB nacional está acima de 2%, mesmo que não haja um retorno social para o profissional.

Você é um dos mais conceituados produtores musicais do país. Mudou muito o conceito de produção musical com o fim dos álbuns físicos? Os músicos se sentem “autossuficientes”?

O conceito de produção não vai mudar. O que mudou foi a entrada de pseudo-produtores no mercado. Antes, só se sustentava no negócio quem era competente e realmente sabia o que estava dirigindo.

Como você avalia o cenário musical nacional hoje?

Desde que me entendo por gente, o cenário musical brasileoro tem seus questionamentos. Estamos em 2020 de o mundo é uma eterna metamorfose, principalmente no que diz respeito à música. Minha geração foi privilegiada, viveu uma verdadeira transformação sonora mundial. Vimos e ouvimos tudo o que aconteceu – da evolução a cada movimento musical, ficamos por  dentro de suas contestações e acompanhamos quem desapareceu e ficou na história.

Você também é músico. O que tem feito e quais seus planos profissionais?

Sou músico, com minha carteira na Ordem sob inscrição 13.381. Hoje somos 26.000. Continuo com a música como essência da minha vida e sem ela não teria me tornado um produtor de sucesso. Dos palcos para o backstage, continuando fazendo bom e alto som, só que fora dos holofotes.

Como você analisa o mercado musical pós-pandemia? Haverá mudanças muito bruscas na relação contratante versus contratado?

É difícil adivinhar. Claro que teremos mudanças, mas não sei em que patamar. As ‘lives’ vão continuar com esse volume? Acho difícil, faz parte da alma do músico o palco e o povo. 

Quando olhamos para a relação contratado versus contratante, pessoalmente acredito que a mudança será para melhor. Toda essa paralisação e impedimento de eventos ao vivo veio para mostrar o peso que a música, o músico, a cultura no geral tem na vida das pessoas. Do pequeno ao grande empresário; da casa de shows mais tecnológica ao bom e velho barzinho; todo esse métier já vem sendo visto de outra maneira pela população e do nosso lado nos constantes reforços junto ao Poder Público.