A Sinfonica Records conversou com o mineiro Ivan Fonseca, produtor musical, professor de música e endorser da Tesla. Ele falou sobre os trabalhos durante a pandemia da COVID-19, a concepção de seu último álbum e como avalia o cenário musical.

Você é produtor, professor e um grande estudioso de música. Sua vida é bastante agitada. Como tem sido conviver com a pandemia da COVID-19?

Bom, Aristóteles já dizia que o que nos diferencia dos animais é sermos donos de nossas vontades. Os animais não possuem a capacidade de não serem eles, enquanto nós podemos ser o que quisermos.

Me formei na faculdade de música e além de músico, trabalho como produtor musical e arranjador, o que me dá muito prazer. Temos a ideia errada que fazer um arranjo é pensar em como a música vai ser em sua métrica, harmonia e melodia –  isso não é arranjar, mas uma ideia do que se quer. O arranjo acontece depois dessa primeira parte, onde são separados os acordes em vozes distintas, trilhando o melhor caminho para cada uma a fim de respeitar e valorizar a melodia principal, criar o ritmo adequado para cada movimento e acrescentar as dinâmicas, tonalidades e cores próprias para cada ocasião.

Tenho um home-studio e a maioria dos trabalhos sempre faço de casa; é um ambiente que me traz paz de espírito e trabalho a hora que me sinto mais à vontade. Isso ajuda muito na composição, pois a qualquer momento posso começar ou continuar de onde parei – a imaginação flui mais, sem horários pré-determinados.

A COVID nos colocou frente a situações interessantes. Uma delas sobre o estresse cotidiano das pessoas. Ele sempre existiu, a pandemia só revelou algo que sempre se quis esconder. O momento é de pensar melhor sobre a gente, compor de uma forma que sempre se quis, mas nunca teve coragem. É o instante de se descobrir como pessoa e artista. Nessa quarentena aproveitei para terminar mais dois álbuns, um na linha do Sounds Of Soul e um de meditação, onde a guitarra sai do seu altar egocêntrico e entra somente como mais um elemento na concepção da sensação sonora.

Você é um endorser da Tesla. Como foi feito o convite pela empresa?

Se não o primeiro, fui um dos endorsers precursores aqui no Brasil pela @tuningguitarparts, convite feito por eles por meio do Glauco. A partir dos meus vídeos publicados na internet comecei a integrar o time brazuca e posteriormente o gringo. A Tesla é uma empresa incrível, com produtos de qualidade indiscutível – meus captadores são os Opus 2 (single) e Opus 4 (humbucker).

Como você avalia o mercado fonográfico comparando com sua vivência no meio musical?

A música deixou de ser o epicentro do próprio mercado e a parte do entretenimento tem um peso maior que o que está sendo tocado. Antes, o artista tinha que saber muito sobre o seu instrumento e a sua faixa de atuação no mercado. Hoje, tem apenas que ser engraçado, contar piada, falar da sua vida utópica, dar dicas de graça e se sobrar um tempo tocar bem.

As gravadoras não apoiam os artistas menores. O cara passa a vida estudando um instrumento e se vê obrigado a praticar, compor, gravar, pagar do próprio bolso por um álbum, divulgar, fazer todo o marketing do produto, algumas vezes pedir para tocar de graça onde ele imagine que será bom para seu trabalho – e nunca é -, pois o artista principal que irá tocar depois dele está recebendo por isso.

Com o uso em massa da internet muita coisa vem mudando. Quando a gravadora controlava tudo, existia um crivo para o que iria sair no mercado. Hoje, o artista é a própria gravadora; basta um celular na mão e uma rede de dados móveis. Mas, aí que mora o problema, já que todos postam o que quer, do jeito que quer e sem respeitar nada. Uma música dessas estoura nas rádios e tudo que está errado ali em relação a métrica, arranjo, composição e letra, vai passar a ser copiado. Chegamos ao ponto que composições sem um mínimo de conceito musical passaram a ser referência para quem vem em seguida.

Você já produziu para cinema, teatro, jingles, participou de álbuns de grandes artista. O que mais lhe dá prazer? Tem algo que ainda deseja fazer e que está nos planos?

Como produtor, compositor, arranjador e músico, fiz a trilha sonora do filme “Novembro” de 2016. Com o percussionista Mamede fiz a trilha do espetáculo “O Baú”. Em 1997, levei a musicalização infantil para a China, trabalho que contou comigo em um violão, meu pai em outro e uma cantora chinesa. Foi a primeira vez que um trabalho de musicalização infantil do Brasil entrou na China, encomendado pela empresa Mendes Júnior por meio do colégio Pitágoras.

Em relação a gravações, participo de álbuns de artistas quase toda semana e gosto muito, pois me sinto útil e tenho um enorme prazer em contribuir com uma obra, ponto muito importante para qualquer artista. Já o palco por muito tempo foi a minha paixão, mas trabalhar como arranjador tem tomado esse espaço. Gosto de pegar uma música e levar para outro patamar, seja na escolha das notas, dos instrumentos ou na sensação física que eu quero causar em quem irá ouvir.

Uma coisa que quero muito realizar em 2021 é um show próprio com orquestra. Estava tudo encaminhado antes da pandemia aparecer, agora vamos aguardar pelo menos o ano que vem, ou no próximo…sem pressa, mas sem perder tempo.

“Sounds of Souls” é seu álbum instrumental mais recente. Como foi a concepção do projeto?

Todos os meus trabalhos são conceituais. Imagino uma história, penso em como contá-la com notas, normalmente escolho o tom por meio da “Teoria dos Afetos” do barroco, abro a partitura e começo a escrever. Muitas vezes, a música sai completa sem precisar pegar em um instrumento.

Trabalho com música instrumental e workshops há mais de 20 anos, mas essa foi minha resignificação com tudo que não fazia mais sentido musicalmente para mim, com minha forma de tocar, instrumentos e técnica. Foi a primeira vez que tive coragem de tocar o que realmente sou, com menos notas, com a música voltada exclusivamente para uma melodia e se sobrepondo à outra. Foi um álbum quase todo escrito para que nenhuma música precisasse da guitarra principal; todos os elementos, as nuances, os contrapontos foram pensados para atuar independentes, para quando minha guitarra entrasse, somasse ao todo e não fosse o ponto principal de sentido à música.

Esse é mesmo o motivo do título – sons que estavam sendo escondidos por mim dentro da minha própria alma.

Minas Gerais é um grande berço musical. O que dizer desse celeiro musical?

Sou de Bom Jesus do Amparo, mas moro em Belo Horizonte, local que já passou por muitas fases musicais desde que comecei a tocar. Minha primeira gig foi sertaneja, estilo que toquei por 11 anos, pois era o forte aqui. Aprendi demais nessa época, já que se tocava de tudo e em todos os tons possíveis. Isso ajuda a criar um ouvido relativo maravilhoso e auxilia em qualquer outro trabalho que aparece. Mas, BH além do Clube da Esquina, é uma cidade que vive de pubs de música cover, onde prevalece o rock. Se vão reabrir após a pandemia, só o tempo dirá.

Hoje, além de tudo que faço,  toco com a banda U2 Latin American. É o momento de relaxar um pouco, pois o som já foi escrito, gravado e imortalizado por outras pessoas – meu papel é só executar direito. Isso me dá um pouco de paz nessa loucura que é trabalhar 24h por dia escrevendo, compondo, produzindo, arranjando e mixando, tentando presentear o mundo com o que tenho de melhor em mim; a música.